terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Da Música



A musica derrama-se
no corpo terroso
da palavra. Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.

A música traz na bagagem
a memória do sangue; o caminho
do sol: Lume e cume
de palavras polidas.

A música rompe um rio de lava
por si mesmo criado. Lágrima
endurecida
onde cabem o mar
e a morte.

Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente"

Poema de Cazuza ( nunca sofri por amor )


Nunca sofri por amor
É duro dizer
Mas nunca sofri mais de dez minutos por amor
Ninguém nunca mereceu o meu choro
Nem a falta de apetite
Vivo de músicas românticas
E não sou romântico

Deve ser a vida de artista
Deve ser assim mesmo
E se alguém me larga
Não sabe o que está perdendo

E se eu largo alguém
Não sinto a menor culpa
Será que eu nunca amei de verdade
Ou o verdadeiro amor
É assim

Eu sofro por um cão
Mas não por um coração
Faz parte da minha natureza

No máximo o que eu sinto
É pena das pessoas
Mas nunca tenho pena de mim
Eu sei que é um egoísmo cruel
E vou por esse mundo
Sem fé

Mas sei o que me importa
E quero ter comigo
O abraço certo
Dos meus amigos

Soneto do amigo


Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Vinicius de Moraes.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011